Foi, sem dúvida, o momento mais emotivo da noite. Distinguido pela sua brilhante interpretação no espectáculo ‘Endgame’, de Samuel Beckett, numa encenação de Bruno Bravo, o actor conseguiu pôr o Coliseu em pé, ao recordar o acidente vascular cerebral (AVC) de que foi vítima em 1995 .
“Rebentou-me uma veia no cérebro e é por isso que tenho dificuldades de locomoção e não mexo o braço direito”, explicou. “Isto é só para aqueles de entre vós que ainda não tinham reparado”, rematou, com o sentido de humor que o caracteriza.
A gargalhada foi geral, mas muitos não conseguiram disfarçar a lágrima ao canto do olho, desarmados pela forma aberta como o actor partilhou com o público a experiência mais dramática da sua vida.
NUNCA DESISTIR
Em 1992, Miguel Seabra ‘nascia’ para o meio teatral português com a estreia de ‘Ki Faxtiamu Noi Kui’, um espectáculo recebido com grande entusiasmo e que acabaria por receber o Prémio Acarte/Madalena Perdigão da Fundação Gulbenkian para a inovação no campo das artes. Desde então, a companhia não mais deixaria de trabalhar, apresentando sempre trabalhos consistentes e de qualidade, que viviam sobretudo da arte dos actores.
Mas, em 1995, um AVC ameaçava pôr fim a tudo. Miguel Seabra passou muito tempo no Centro de Reabilitação do Alcoitão, e nunca mais esqueceu a lição do senhor que o ajudava a subir de elevador. “Ó rapaz , não deixes de fazer o que gostas. Podes não fazê-lo exactamente da mesma forma... mas fá-lo de uma maneira nova.”
Ao receber o seu prémio, o actor dedicou-o também à pessoa que esteve a seu lado durante o doloroso processo de recuperação: a actriz Natália Luiza, namorada à data.
ENTRE OS ÓSCARES E OS PRÉMIOS DE MÚSICA MTV
Numa edição diferente dos Globos de Ouro – uma espécie de mistura entre os Óscares e os MTV – o espectáculo ‘Endgame’ e o grupo Da Weasel foram os grandes vencedores da noite.
Para além do Globo de Melhor Actor de Teatro, ‘Endgame’ recebeu ainda a estatueta de Melhor Espectáculo do ano. Na categoria de Melhor Actriz, venceu, com grande justiça, Cucha Carvalheiro pela sua memorável interpretação no espectáculo ‘A Cabra ou Quem é a Sílvia’, de Edward Albee, encenado por Álvaro Correia.
Já os Da Weasel tiveram de subir duas vezes ao palco, para receber os globos de Melhor Canção (pelo tema ‘Re-Tratamento’) e Melhor Grupo (pelo álbum ‘Re-Definições’). Rodrigo Leão sagrou-se Melhor Intérprete Individual de 2004, com o CD ‘Cinema’.
OS CASOS DA NOITE
O ‘caso’ da noite aconteceu quando, ao receber o Globo de Melhor Actor de cinema, a estatueta de Nicolau Breyner se partiu ao meio. Teve graça, mas não foi o único percalço da cerimónia...
Logo a seguir, ao chamar o vencedor do Melhor Filme do ano, a recém-casada Fátima Lopes disse “Joaquim Canijo” em vez de João Canijo, e o discurso de Joaquim Gonçalves (Globo de Ouro de Mérito e Excelência de Economia) foi interrompido duas vezes pela orquestra, até que o orador conseguisse finalizar com um ‘boa noite’.
Beatriz Batarda voltou a bisar nos Globos, recebendo o galardão de Melhor Actriz de Cinema pelos filmes ‘Noite Escura’ e ‘A Costa dos Murmúrios’.
Finalmente, novidade foram também os prémios dados a José Mourinho e ao canoísta Emanuel Silva (respectivamente Revelação e Mérito e Excelência em Desporto), Moez Sacoor e Jardim Gonçalves (Economia), Paula Ravasco e Carlos Fiolhais (Ciência) e Joana Vasconcelos e António Lobo Antunes (Artes).