Da Weasel e Kasabian suplantaram, sem dificuldades, os Oasis e foram os heróis do segundo dia do Sudoeste, um festival a testar este ano uma nova fórmula a que os números dão razão, com o público a aderir, de facto, de forma entusiasta.
Ainda será cedo para balanços, mas após o segundo dia – com mais de 50 mil pessoas presentes – é possível dizer que a edição 2005 ficará para a história como uma das maiores de sempre.
Na verdade, sexta-feira registou-se maior enchente ainda que a verificada na jornada inaugural. Os que na véspera tinham ficado nas tendas, arrasados pelas longas viagens, saíram desta vez das ‘tocas’ e inundaram literalmente esta cidade da música. E mais se lhes juntaram vindos de diversas paragens de todo o País. Tal como alguns VIP, como Margarida Uva, mulher de Durão Barroso, que assistiu, entusiasmada, ao concerto dos Oasis a partir da ‘régie’ a meio do recinto.
A ‘engordar’ a cada dia que passa – ontem mesmo havia ainda muita gente a desembarcar das camionetas junto ao recinto –, o Sudoeste conheceu sexta-feira um dia grande. Inaugurou-se mais um palco, o Positive Vibes, dedicado ao reggae, e foi aposta ganha. Milhares juntaram-se-lhe em frente para assistir ao desfile de nomes como Souls Of Fire, Groundation e Black Uhuru, estes últimos os senhores da noite naquele espaço. Muito especial, de resto, com uma atmosfera bastante, digamos, aromatizada...
Não muito longe, no palco Planeta Sudoeste, o destaque vai para Devendra Banhart, um ‘hippie’ ex-sem-abrigo que proporcionou um belíssimo concerto folk-psicadélico à geração dos ‘Amigos de Alex’ (que desencadeou um atraso nunca mais compensado naquele palco), e LCD Soundsystem, que simplesmente arrasaram com um ‘set’ alucinante de batida electrónica.
A SALIVAR
Mas era no Palco TMN que se jogavam os principais trunfos da noite. Os brasileiros Skank abriram e cumpriram, K-Os trouxe mais ‘vibração positiva’ e, depois, Da Weasel deram um ‘aviamento’ que só visto, ainda que tenham subido ao palco “todos mijadinhos”, como confessou PacMan depois de ver a compacta e numerosa plateia. Com um jogo cénico grandioso, a banda de Almada foi a primeira a levantar poeira neste Sudoeste e deixou até meia plateia a salivar, quando, em ‘Re-Tratamento’, uma ‘stripper’ (Cindy) se despiu por completo com gestos lânguidos. “Esta é das vezes que temos mais gente à nossa frente e menos povo canta o refrão”, exclamou Virgul traduzindo a surpresa da banda. Pudera! Cá em baixo os olhos estavam colados nas curvas e contracurvas da modelo, sensual a cada movimento até à nudez total.
Num concerto em crescendo de intensidade, destaque ainda para ‘Força’, ‘Outro Nível’, ‘Toda a Gente’ e o dueto virtual com Manuel Cruz (ex-Ornatos) em ‘Casa’. No ‘Suda’, os Da Weasel provaram, sobretudo, que são hoje das poucas bandas nacionais a poder competir de igual para igual com os grandes nomes internacionais.
Como se provou depois com os Oasis. A banda dos manos Gallagher não se dá bem, de resto, com o Sudoeste. Há cinco anos teve de abandonar o palco debaixo de uma chuva de garrafas e, desta vez, foram problemas de som logo no início a atrapalhar a prestação. Que só perto do final, com os êxitos ‘Wonderwall’ e ‘Don’t Look Back In Anger’ conseguiu criar uma empatia maior no público. A despedida, com uma versão de ‘My Generation’ (The Who), foi saudada até por muitos.
A fechar a noite no palco principal, os Kasabian surpreenderam muito positivamente, com um rock musculado e simultaneamente exótico, com guitarras fortes aliadas a uma discreta mas eficaz panóplia de efeitos digitais e outros. E eles mesmos ficaram surpresos com a atitude (e a enchente) lusa, não se cansando de gritar “Portugal!”. Foi em grande o fecho do segundo dia.
NOVA FÓRMULA A APURAR
A nova fórmula do Sudoeste, que coloca três palcos em funcionamento simultâneo à semelhança do que se passa na maior parte dos grandes festivais europeus, provou ter ‘pernas para andar’. O único senão é que obriga a ‘corridas’ de palco para palco na tentativa de não perder artistas de inegável qualidade.
Sexta-feira, a luta foi entre Black Uhuru e LCD Soundsystem, que praticamente juntaram plateias ainda que os respectivos palcos distem cerca de 50 metros um do outro. Aliás, junto a estes estava tanta gente como frente a Oasis, então em cena do palco TMN. A fórmula tem, no entanto, de ser aprimorada.
É que em determinados locais a ‘interferência’ sonora é inevitável e a confusão instala-se. Nada que a organização não esteja já a tratar.
A CHEGAR
Sexta-feira (e ontem também) foi dia de chegada para muitos. Joana e Débora são duas amigas e meteram pernas ao caminho, que é como quem diz “na camioneta. Foi suar até mais não”, confessou ao CM Joana, na altura debatendo-se, com a amiga (de martelo na mão), para montar a tenda. “O chão é muito rijo. As espias torcem-se todas. Não é como em Vilar de Mouros, que as espetávamos à mão”, atirou Joana já habituada às andanças festivaleiras. Após uma luta inglória lá acabaram por mudar de lugar e, com a ajuda de uns amigos de ocasião, acabaram por assentar arraiais não muito longe dali. Não vamos é ter sombra, mas estamos perto que é o que interessa”, lançaram.
BOMBEIROS
Aqui, são outros os ‘fogos’ que os Bombeiros de Odemira têm de apagar. A corporação, chefiada pelo comandante Nazário Viana, fez deslocar duas equipas de intervenção, duas ambulâncias de socorro para evacuações e cerca de 30 pessoas, “que se vão revezando por turnos aqui e no quartel”, explicou ao CM.
Sempre atentos a qualquer foco de incêndio, os soldados da paz têm mantido particular atenção às “pequenas botijas de gás, daquelas do campismo, já que algumas apresentam fugas que podem ser complicadas. Ainda ontem (quinta-feira) tivemos de dar assistência a uns”, disse o comandante.
INVASÃO ESPANHOLA
A cada dia que passa, o festival mostra que está cada vez mais ...ibérico. Na verdade, os espanhóis, sobretudo do Sul, estão a invadir a Herdade da Casa Branca. No recinto já é habitual cruzarmo-nos e ‘hablarmos’ com eles (e elas) e a invasão faz-se também notar no número de jornalistas e até no Hospital da Cruz Vermelha (CV).
O médico responsável é um espanhol de origem síria (Mohammad Al Wattar) que mora em Badajoz, dá consultas em Estremoz e é responsável pela cooperação da CV portuguesa e espanhola. Visivelmente cansado, foi ele quem revelou ao CM que os números de sexta-feira dobraram os da véspera (mais de 400 assistências, portanto), mas que “apenas três a cinco por cento são por excesso de álcool”. A maior parte são picadas de insectos e traumatismos diversos, sobretudo entorses. Mohammad dirige mais de 30 pessoas – três médicos, cinco enfermeiros e 25 “sanitários” –, “que nesta altura estão todos muito cansados. Dormimos em média duas a três horas por dia”. Desejos de pouco trabalho, então!
A VANESSA EXISTE MESMO
“Maria Albertina como foste nessa de chamar Vanessa à tua menina”. A frase é da canção ‘Maria Albertina’, dos Humanos, mas a menina existe de facto, mas não conhece a banda.
A história da verdadeira Vanessa só chegou aos ouvidos dos Humanos quando estes estavam a gravar o disco. E, depois, no segundo concerto de Junho, no Coliseu de Lisboa, o grupo foi surpreendido pela presença do pai de Vanessa que envergava uma ‘t-shirt’ com fotografias da mãe, Maria Albertina, e da filha.
A Vanessa, que é “bem cheinha e muito bonitinha”, como reza a canção, é, de facto, filha de Maria Albertina, uma senhora que, no tempo de Variações, trabalhava na editora do artista, a EMI (na altura a funcionar na R. Nova do Almada, perto do cabeleireiro do cantor). Um dia, a senhora desabafou com Variações que estava a ter problemas porque, na sua terra, não viam com bons olhos o facto de ter chamado Vanessa à filha. Oh...D. Maria Albertina, terá pensado António Variações, “como é que foste nessa de chamar Vanessa à tua menina”, escreveu. A canção ficou perdida mais de 20 anos e agora é um êxito da música portuguesa. Ainda bem, Vanessa.!
O RITUAL DA PURIFICAÇÃO
Todos os anos, milhares de fiéis devotos da Elsa rumam a Sudoeste para lhes prestar tributo. E, invariavelmente, os rituais em honra da padroeira sucedem-se.
Hoje, vamos falar-lhes do ritual do banho, que aqui vai muito para além da função higiénica. Na verdade, o banho nos canais, ainda que este ano vedados em áreas fora da influência da padroeira, cumpre também outras funções, a saber, social e de purificação. É ali, junto ao leito de águas límpidas e profundas, que muitos contactos se estabelecem, se trocam números de telemóvel (esse pequeno instrumento que está a revolucionar a comunicação e a linguagem até ao nível da sintaxe...), se trocam sorrisos e se consomem substâncias xamânicas (um ritual dentro dos rituais).
Mas é a purificação que se busca (inconscientemente) a cada mergulho. “Pela Elsa”, “Ó Elsa vê lá este”, gritam os mais devotos antes dos mergulhos, observados de soslaio por muitas admiradoras. Esta Elsa é mesmo uma figura muito peculiar!
DETENÇÕES POR FURTO
Em pleno parque de campismo, a segurança foi encontrar meia dúzia de cidadãos espanhóis que se dedicavam a roubar tendas enquanto os ‘inquilinos’ assistiam aos concertos do festival.