Assusta-me pensar que possa ser um ídolo

028.jpgPacman, vocalista e letrista dos Da Weasel, diz-se um homem de sorte e defende a liberalização das drogas leves. Filho de cabo-verdianos, considera que "o português tem bom fundo" mas acusa o País de racismo encapuzado. Homem de esquerda, diz que voltará à política sempre que Manuel Alegre lhe pedir. Do Mundial de Futebol acredita que é possível trazer o troféu.

Correio da manhã - Há uma música dos Da Weasel, ‘Essência', que diz: "É tudo bom, soma e segue sem parar". Tem sido tudo bom na vossa carreira?

Pacman - Quase tudo. No início as coisas não foram propriamente fáceis até porque tivemos de passar por aquele período de garagem como qualquer banda. Mas para além de sorte também tivemos pessoas que nos ajudaram muito.

- E depois?

- Depois tivemos a sorte de ter uma maqueta que foi parar à XFM e de assinar por uma multinacional, o que ajudou as coisas a evoluírem muito naturalmente.

- Nos espectáculos dos Da Weasel vê-se crianças e jovens a cantar as letras. ‘Re-Definições' vendeu 80 mil discos. No Rock In Rio actuaram para 60 mil pessoas. Já pensaram em vocês como os ídolos de uma geração?

- Assusta-me pensar nisso. Não tenho essa pretensão e nem quero essa responsabilidade. A vida que faço não é exemplo para ninguém.

- Que relação têm com os fãs?

- Procuramos que seja muito próxima. Há um núcleo duro que nos acompanha para todo o lado e com esses, por exemplo, já se criou uma empatia muito grande. Depois dos concertos fazemos sempre por ter um tempinho para eles. Para além disso, temos o ‘site' onde conversamos muito.

- Que tipo de abordagem é que eles vos fazem?

- Todo o género de coisas, desde as perguntas mais básicas, até aos que nos dizem que a nossa música os ajudou em fases difíceis da vida.

- Já viveram alguma cena desagradável com fãs?

- Houve um concerto em Gondomar que foi o culminar de uma série de espectáculos seguidos em que, no final, decidimos ir embora porque estávamos muito cansados. Acabámos por não reservar o tal tempinho para os fãs. Eles não gostaram e quase fomos linchados. Quando saímos, só havia pessoas a bater-nos nos carros. O nosso ‘road manager' levou uma chapada de uma senhora.

- Ainda existe muito a ideia de que uma banda, e especialmente o vocalista, tem as miúdas todas atrás. Costumam receber propostas indecentes?

- Já recebi algumas. Não me posso queixar (risos).

- Por exemplo?

- Há quase sempre aquele piropo muito engraçado do género "faz-me um filho!".

- Qual é a sua posição relativamente às drogas?

- Sempre defendi a legalização das drogas leves. Acho que o álcool é muito mais perigoso e há estudos que o confirmam.

- Tocaram no passado fim-de-semana em Paris no Dia de Portugal. Que motivos temos para nos orgulharmos de ser portugueses?

- Acho que nos podemos orgulhar do nosso fundo. O português tem bom fundo. É boa gente. Já viajei muito por esse Mundo e acho que, em termos de simpatia e hospitalidade, só há um povo que ultrapassa o português que é o cabo-verdiano.

- E temos motivos para nos envergonharmos de Portugal?

- Talvez nos devêssemos envergonhar da passividade em que muitas vezes nos deixamos cair e andar. Há muita falta de reivindicação. As pessoas vivem muito acomodadas. Tirando o 25 de Abril, a única coisa que me fez arrepiar até hoje na História recente de Portugal foi a mobilização em torno de Timor-Leste, em que as pessoas saíram para a rua para se manifestarem.

- Portugal dá muito pouco valor ao que é seu e a música é um bom exemplo disso. Já pensaram onde poderiam estar se tivessem nascido noutro país?

- Penso nisso quando estou, por exemplo, nos prémios MTV, e começo a ver que uma banda norte-americana que ganhe platina não tem de fazer mais nada no resto da vida (risos). Mas ainda assim, dou-me por contente com aquilo que tenho e que já consegui.

- Porque se ouve tão pouca música portuguesa em Portugal?

- Há quem diga que isso acontece porque as pessoas são tacanhas. Eu não acredito nisso. Os media, as rádios e as televisões é que são tacanhas. Conheço bem o País real e já toquei em sítios inacreditáveis. Quando se diz que, em determinados locais, as pessoas são parolas, isso não é verdade. Há muita gente com orgulho na língua e que prefere ouvir-me cantar em português do que em inglês.

- Então o que é que se passa?

- O problema está nos poderes instituídos, está na rádio e nas televisões que continuam a ser preconceituosas em relação ao que se faz em Portugal.

- Carlos Nobre Neves é o verdadeiro nome de Pacman. Há muitas diferenças entre um e outro?

- O Pacman é talvez uma pessoa mais arrojada, é um Carlos Nobre mais livre, com menos medos. É engraçado porque, enquanto cantor dos Da Weasel, consigo ganhar um à-vontade e uma força que não tenho na minha vida normal. Aliás, eu, o Carlos Nobres Neves, sou uma pessoa muito tímida e reservada. Acho que, no fundo, essas são as grande diferenças.

"VOLTAREI A DAR A CARA POR ALEGRE"

CM - Pela primeira vez, deu a cara pela política e pela campanha de Manuel Alegre. Perdeu para Cavaco Silva. Como homem de esquerda como vê a presidência de um homem de direita?

Pacman - A minha opinião tem mais a ver com o que Cavaco Silva simboliza e não tanto com o que tem feito. Claro que gostava que estivesse um homem de esquerda na presidência, mas estaria muito mais preocupado se estivesse um de direita no Governo.

- O que o fez entrar na campanha?

- O Manuel Alegre, apenas e só. É uma pessoa muito humana com um grande carácter e que, como poucos, acredita naquilo que diz. Sou um grande admirador seu e não tinha como recusar o convite que me fez.

- É para continuar?

- Voltarei a dar a cara pelo Manuel Alegre sempre que ele me pedir mas apenas, e só, para ele. De resto, para mim, a política está cheia de jogos muito feios e muito sujos. Não gostava de ter de participar deles. Acredito que a política corrompe.

- Manuel Alegre gerou um movimento impressionante à sua volta. Conseguiu um milhão de votos. Entretanto, essa onda parece ter-se esfumado. O que aconteceu?

- Não tenho essa ideia. As pessoas mais activas continuam a reunir-se com frequência. Eu, por exemplo, afastei-me um pouco, mas apenas por causa da música.

- É importante que a música tenha um papel interventivo na política?

- Sim. Pode e deve ter. Tudo o que tenha a ver, por exemplo, com campanhas de solidariedade ou causas maiores, a música deve dar o seu contributo porque tem uma influência enorme junto das pessoas.

"SÓ QUERO QUE PORTUGAL JOGUE BEM"

CM - O Bob Marley já dizia que futebol é música. O que espera do Mundial?

Pacman - Só quero que Portugal jogue bem. Gostava que fossemos o mais longe possível mas, acima de tudo, que a selecção portuguesa jogasse sempre concentrada e como equipa. Espero que todos os nossos jogadores dêem motivos de orgulho ao País.

- Portugal é favorito?

- Acho que temos equipa para discutir resultados com qualquer equipa do Mundo, mas ainda não estamos a fazer os jogos ideais, que estão dentro do real alcance dos nossos jogadores. Mas é algo que com o tempo - ontem já se notaram grandes melhorias - poderá ser uma realidade. Os outros não nos vêem como favoritos e isso pode ser um trunfo a nosso favor.

- As equipas africanas que estão na prova merecem-lhe uma atenção especial?

- Confesso que, depois de Portugal, o meu coração balança para as equipas africanas. Tenho pena de que Cabo Verde não tenha conseguido a qualificação.

- Apesar de a sua família ser de Cabo Verde, você nasceu em Angola. Pode-se dizer que é a sua segunda equipa no Mundial?

- Desejo tudo de melhor para Angola mas sei que é muito difícil chegar à próxima fase, embora estes resultados já sejam muito importantes.

"O RACISMO É MUITO ENCAPUZADO"

CM - Você foi protagonista de um episódio racista no Estádio da Luz não há muito tempo. Afinal somos ou não um povo racista?

Pacman - Acho que há muito racismo por aí, se bem que em Portugal o racismo é muito encapuzado. Vemos muitos pretos a trabalhar no McDonald's, mas depois podemos contar pelos dedos de uma mão os que vemos à frente de um balcão de um banco. Quantos pretos há, por exemplo, a trabalhar na televisão? Se olharmos para grandes cargos, seja em organismos particulares ou públicos, simplesmente não vemos pretos.

- Sendo mestiço e oriundo de Almada, uma zona não propriamente rica, foi alguma vez vítima de racismo?

- Venho da classe média-baixa e de uma rua que, tirando os bairros sociais, é a que tem mais pretos em Almada. O sítio onde eu vivia era mesmo conhecido pelas pessoas como a rua dos pretos. Isso quer dizer que ali estava completamente salvaguardado. As primeiras manifestações de racismo senti-as na escola e no Secundário. Lembro-me que namorava com uma miúda branca e que o pai lhe batia em casa por causa de andar a sair comigo. Recordo-me também de que a minha adolescência coincidiu com o movimento dos ‘skin heads' na margem Sul e que fomos muito perseguidos na altura.

PERFIL

Nascido em Angola mas filho de cabo-verdianos, Pacman saltou para a ribalta quando em 1994 se formaram os Da Weasel. De Led Zeppelin ao hip-hop, passando por r & b e bandas mais pesadas, ouve de tudo. Com ‘Re-Definições', o último álbum, o grupo chegou à quadrupla platina, mais de 80 mil unidades vendidas.

Aos 30 anos foi convidado pela filha de Manuel Alegre para mandatário da juventude na campanha do pai às presidências. Defende a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas, a restrição do tabaco em certos locais público, uma media que considera positiva para combater o vício. Participa no último álbum de Nelly Furtado, ‘Loose'.
 

Coment⳩os  

 
0 #1 Catii 2010-12-08 00:52
Esquece sem dúvida qe tu abres os olhos e fazes ver a muita gente mesmo. és fantastico. Carlos Nobre
Cita褯
 

Comentar


Cdigo de seguran衊FORM_CAPTCHA_REFRESH=Actualizar
FORM_CAPTCHA_REFRESH

Identificação



CB Online

Nenhum