A partir do momento que ganhas algum reconhecimento público, ganhas também uma série de responsabilidades, quer queiras ou não. Aquilo que tu crias, tudo aquilo que já alguma vez criaste deixa de ser teu, só para ti. Passa a pertencer a um sem-número de pessoas que para ti são perfeitos desconhecidos, mas conhecem uma parte significativa do teu ser, ou seja, conhecem o teu trabalho e fazem dele algo seu, também. E que de certa forma têm o direito de te julgar a partir do momento que os cativas e os trazes para o teu mundo. Mas só até certo ponto, porque tudo tem um limite e nunca se pode esquecer disso. De quem somos. Da origem. Faço música porque cresci com esse sonho. Se toquei e toco em certos pontos foi porque senti necessidade de o fazer, não por obrigação, logo não tenho que fazer sempre o mesmo. Nunca quis assumir aquilo que faço como pedagógico ou mesmo politico. Mas a exposição é lixada. Tudo, mas tudo, passa a ter várias leituras. E só sabe bem meter alguém num pedestal porque sabemos que mais tarde vai-nos saber ainda melhor deitá-lo dali para baixo. Nada a fazer, é a natureza humana. E agora, se tou bem-disposto, é porque devo estar bêbado ou drogado. Se não me sinto bem, é porque devo estar bêbado ou drogado. Se um dia não me apetecer sorrir é porque sou antipático. Mas se por acaso um dia sorrir muito, é porque devo ser um falso. Não há abébias. Porque, como diz o outro, não há almoços gratis. E não dá para cagar para em tudo – até porque simplesmente não se pode e não se deve voltar atrás. E porque haveria? E então o quê que se pode fazer? Continuar a lutar. Contra a mesquinhez, contra a ilusão de grandeza que muitas vezes nos tentam impor bem as tentadoras tripes de ego… E dar graças a Deus por estes problemas – são apenas ossos de um ofício que não trocaria por nada neste mundo.