Otherground - segunda parte

Apesar das feições africanas bem marcadas, tinha pele mais clara e uma quase carapinha bem russa, (que entretanto foi escurecendo). O copy do anúncio do Restaurador Olex dava material para o pessoal fazer a piadinha comigo: “Um branco de carapinha? Um preto de cabeleira loura? Não é normal…” Claro que era. Cresci a ouvir Michael Jackson, depois U2, depois Heavy Metal e depois Hip-Hop e depois embrulhei praticamente todo o género e sub-género musical de que se possam lembrar no mesmo saco. Pelo meio tentei adoptar uma série de modas e estilos de vestir e falar sem sucesso - nunca me senti confortável, até perceber que não tinha que fazer parte de merda de grupo ou tribo nenhuma, na recta final do ensino secundário, como de resto quase todos os meus amigos. Tal e qual como em relação à minha mistura de sangues e raças. E aí, quando me perguntavam qual o tipo de música de que eu gostava, pergunta que ainda hoje abomino, comecei a responder: da boa. Na semana em que me propuseram escrever esta(s) crónica(s), soube que o último disco do Boss Ac chegou à marca de Ouro, e acredito sinceramente que não se vá ficar por aí. O disco tem uma produção irrepreensível, uma mão cheia de bons singles de um hip-hop descomplexado e bem-disposto, a um tempo lúdico e interventivo, sem se levar demasiado a sério. Comunga uma série de referências, da música cabo-verdiana a uma guitarra assumidamente rock e até um dos nomes mais importantes da música norte-americana das últimas décadas entra na festa: Posdnuos, ou Plug-One, se preferirem, dos De La Soul é um convidado de luxo em qualquer sítio do mundo. A primeira vez que vi e ouvi o Ac foi há uns bons doze anos atrás, nas matinés do clube “Trópico”: (continua para a semana)
 

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