Sejamos claros: para a generalidade dos portugueses, o hip-hop ainda é a música dos subúrbios e dos excluídos, e se a cor da pele for negra tanto melhor para enquadrar no retrato padrão que é exigido, com todos os rituais identificados. A sociedade portuguesa tem dificuldade em representar ou integrar a diferença, e a forma como a cultura hip-hop ainda é encarada apenas o confirma. E, no entanto, poucas músicas reflectirão de forma tão premente aquilo que é o Portugal de hoje. Não aquilo que queríamos que ele fosse, como na projecção fadista, mas aquilo que o país é, movido por contradições, como um laboratório de linguagens e sons em contínua reinvenção.
Não há uma verdade oficial sobre o hip-hop. Existem muitas. Em termos sonoplastas é talvez o género mais revolucionário para a música popular das últimas décadas, ao nível das ferramentas, das técnicas e das condições de operacionalidade. O seu maior feito é bem capaz de ter sido esse: mostrar que toda a gente é apta a expressar-se através da música, independentemente de ter tido aprendizagem musical, da condição social, da cor da pele ou de qualquer outra diferença.
Mas funcionou também, desde o princípio, como afirmação de identidade, marcado por um discurso interventivo, mas mesmo a esse nível não existe consenso - não eram as primeiras festas de hip-hop em Nova Iorque momentos de sublimação? Como dizia o pioneiro Grandmaster Flash: "as primeiras rimas falavam de festa, não de revolução."No meio da diversidade, existe apenas uma certeza. Foi ganhando expressão global, chegando hoje a todas as partes do planeta, mostrando enorme plasticidade na forma como absorve as marcas de identidade de diferentes territórios. E chegamos a Portugal.
Onze anos depois de "Rapública", a compilação que revelou a primeira fornada de projectos de hip-hop como Black Company, Boss AC, Zona Dread ou Líderes Da Nova Mensagem, chega "Nação Hip-Hop", talvez a mais importante antologia do género editada nos últimos anos, permitindo uma panorâmica sobre o momento português. Mantêm-se mal entendidos deste então, mas também houve transformações como alguns dos nomes aqui presentes, que viveram os primeiros tempos - Boss AC, D-Mars, Melo D, Mind Da Gap ou Da Weasel -, não deixarão de afirmar.
Nos últimos anos, o número de edições aumentou, as gravações caseiras passaram das pequenas lojas para as grandes superfícies, surgiram editoras, ergueram-se eventos relevantes e o público interessado é cada vez mais heterogéneo e em maior número. Nem tudo será perfeito, alguns destes músicos ainda denotam pouca maturidade, incapacidade de gestão do espaço sonoro e rigidez vocal, mas parecem reunidas condições para haver quem consiga posição de destaque no panorama pop português como esta compilação confirma.
Da grande Lisboa ou do Porto, alguns já consagrados outros a começar, procurando inspiração no reggae e na soul ou no R&B e no jazz, expondo universos mais sombrios ou mais luminosos, optando por letras de cariz libidinoso ou de intervenção política, sente-se nestes temas avulsos uma intencionalidade e uma precisão que apenas terá que ser transposta para os álbuns editados a solo por alguns destes agentes. Para alguns deles parece só uma questão de tempo. O sucesso dos Da Weasel, a capacidade de assimilação de Melo D, o sentido melódico de Sam The Kid ou Ace, o engenho no cruzamento do R&B com o hip-hop dos Expensive Soul ou Boss AC, o reggae nos Matozoo e Chullage, o dancehall dos Mentes Conscientes ou a soul de NBC garantem que esta história vai continuar a ser reescrita.