PORTUGAL, NAÇÃO HIP-HOP

Participam na antologia "Nação Hip-Hop 2005" e têm todos ligação com o hip-hop, mas a sua aproximação é diversa. Têm estatuto, idades e percursos diferentes mas acabam por reflectir uma maior integração do fenómeno na sociedade portuguesa - a pesar dos equívocos, o hip-hop em Portugal já não é uma realidade que tenha que ser reafirmada, faz parte dos nossos dias, daquilo que somos; é também música popular portuguesa.
Pacman é o cantor dos Da Weasel, o grupo mais bem sucedido neste momento em Portugal, depois da edição, o ano passado, do álbum "Re-Definições". A sua música parte do hip-hop, mas o rock, o R&B ou o reggae andam à volta. Nos circuitos mais militantes há quem não lhes perdoe o sucesso. Sobem hoje ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Outro pioneiro, Melo D, depois de ter feito parte dos Family, integrou os Cool Hipnoise e há dois anos enveredou por uma carreira a solo com "Outro Universo", estando neste momento a gravar novo disco. A sua música assimila hip-hop, jazz, reggae, dub, Brasil ou Angola.
O produtor e cantor Samuel Mira, mais conhecido por Sam The Kid, começou a criar música na segunda metade dos anos 90. Em 1999 editou um dos primeiros álbuns portugueses de hip-hop, em edição de autor, "Entre(tanto)", seguiu-se "Sobre(tudo)" e há dois anos o álbum de fantasias instrumentais "Beats Vol. 1 - Amor", que o confirmaria como um dos mais talentosos produtores da sua geração. Nas suas bases sonoras encontramos traços melódicos e elementos da música ligeira portuguesa. Este ano vai editar novo disco.
Da mesma geração, Valete editou o ano passado "Educação Visual", depois de ter participado em várias gravações caseiras. Cultiva a atitude de uma certa invisibilidade e permanece fiel a uma espécie de ética hip-hop.

O hip-hop em Portugal parece andar a duas velocidades. Hoje os Da Weasel actuam no Coliseu o que parece mostrar que o género chega a um público mais alargado. Mas olhando para a capa da colectânea "Nação Hip-Hop", temos ainda o estereótipo do imaginário suburbano como há dez anos.

Sam The Kid - É justo os Da Weasel estarem neste momento numa boa posição. É uma forma do público mais novo se interessar pelo que se está a passar à sua volta - depois de os ouvirem podem interessar-se pelo Sam The Kid ou pelo Valete e isso é extremamente positivo.

Melo D - A capa é sintomática da forma como as pessoas continuam a ver o hip-hop. A nossa música é para todos, não contempla idades ou outras diferenças, mas é ainda vista como coisa para miúdos.

Pacman - A capa não faz justiça ao que se passa em Portugal, mas o que está lá dentro faz, e isso é importante. Mostra uma grande diferença em relação ao que se fazia há dez anos. Na altura ninguém tinha noção de nada, por exemplo a nível da produção. Havia apenas vontade.

Valete - A capa é representativa da forma como os "media" e a indústria olham para o hip-hop, como sendo música de putos insubordinados para outros putos. É a chamada capa "yo!". O hip-hop ainda é visto assim, apesar de já ter outra cara e de chegar a diferentes tipos de pessoas.

Melo D - Na rua confronto-me muito com essa história do "yo!". Vêm ter comigo e começam "yo! yo! yo!"...[risos]. Não é necessário essa palhaçada toda para comunicar. Somos pessoas como quaisquer outras!

O Melo D e Pacman começaram há mais de dez anos, enquanto Sam The Kid e Valete fazem parte de uma fornada mais recente. Se existem diferentes gerações no hip-hop feito em Portugal, o que é que as diferencia?

Sam the Kid - O Melo D e o Pacman pertencem à primeira geração, eu e o Valete a uma segunda e agora existe uma terceira, que já tem como referências o rap português. Quando comecei, estava atento ao que se passava aqui, mas as minhas influências eram estrangeiras. Hoje as coisas estão a mudar. Ainda há pouco o David Ferreira [principal responsável pela editora EMI] me pediu um autógrafo em nome do filho, o que prova que existe transmissão de gostos entre pessoas mais novas e mais velhas.

Valete - A geração do Pacman e do Melo D tinha como referências os anos 80 do hip-hop americano, dos Public Enemy aos Run DMC. A meio dos anos 90 surgiu nos EUA uma geração de "rappers" apenas com visão de negócio. A minha geração e do Sam dividiu-se, então, entre aqueles que seguiram a MTV e uma outra de oposição, "underground", com uma visão anti-indústria. A terceira geração só tem como referências os "rappers" portugueses.

Pacman - No outro dia vi na TV alguém a "rappar" tal e qual o Sam. E isso é fixe. Deve ser essa tal terceira geração.

Sam the Kid - O que é engraçado é que a nova geração recusa tudo o que seja americano, apenas consome o que é português, porque tem aquela imagem do hip-hop americano como sendo apenas um produto MTV. Mas existe muito bom hip-hop americano. É necessário saber ouvir tudo.

O mercado americano, o maior e mais influente do mundo, é dominado pela cultura hip-hop e pelo R&B. Em Portugal ainda nem sequer é uma realidade consolidada. Como é que se pode inverter isso?

Pacman - Os EUA são um caso à parte. No resto do mundo esse facto não está tão presente.

Valete - Acho que tem a ver com a idade das coisas. Há elementos decisivos para o crescimento do mercado, que têm a ver com as multinacionais, as rádios e os "media". A maior parte das pessoas à frente desses meios não estão sensibilizadas para o hip-hop. As multinacionais em Portugal, mesmo em relação a "rappers" americanos que estão no topo das tabelas de vendas de todo o mundo, quase não fazem promoção.

Melo D - Existem muitos preconceitos, em diferentes sectores, mesmo ao nível da cor da pele. As pessoas olham de forma diferente para a música consoante seja um branco ou um negro a fazê-la. No meu caso, sinto que tenho que fazer um esforço constante para adaptar a minha linguagem à pessoa que está à minha frente, senão ela não vai compreender.

Sam the Kid - Mas isso é natural. Eu não falo da mesma forma com o Valete e com a minha mãe. Com ele permito-me utilizar expressões de calão, por exemplo. Temos que saber adaptar o vocabulário às pessoas com quem falamos.

Valete - Percebo o que o Melo D diz: é como se só pudéssemos ser aceites se transformássemos o nosso discurso em função daquilo que é esperado. Nesse sentido, acho importante continuar-se a dizer "yo!", "tá-se bem" ou "fat". São americanismos mas fazem parte da cultura hip-hop.

Sam the Kid - Eu utilizo imensas expressões inglesas quando falo.

Valete - É importante assumir aquilo que se é, independentemente de onde estejamos, seja na TV ou noutro local qualquer.

Uma crítica recorrente dizia que o hip-hop feito em Portugal se limitava a copiar modelos americanos, sem haver paralelo entre a realidade americana e a portuguesa - mas isso também se podia dizer do rock. Hoje, pelo contrário, parece existir uma geração que só consome hip-hop feito em Portugal.

Sam the Kid - A identidade passa pela língua. As novas gerações querem identificar-se com aquilo que é dito. Querem perceber. Nem toda a gente percebe inglês. Eu gosto de hip-hop francês, mas apenas tenho dois discos, porque não entendo a língua.

Melo D - Eu estou com essa geração mais nova. Prefiro ouvir em português, já não ligo muito aos americanos.

Pacman - O português quando é bem tratado diz-nos mais. Em termos de comunicação, sentimo-nos mais próximos.

Valete - Em Portugal há muitos projectos que estão desfasados da nossa realidade. Nesse sentido, limitam-se a importar modelos americanos.

Sam the Kid - Ainda existe muito por explorar na relação entre a língua portuguesa e o hip-hop. Dá um gozo do caraças explorar esse caminho.

Pacman - No princípio, era natural que todos nós estivéssemos mais próximos dos modelos americanos. Era um processo que estava no início. Hoje as nossas referências são mais diversas. Quando se está no início é natural que existam mais modelos, até se descobrir um caminho próprio.

Valoriza-se muito o facto de cantarem todos em português, mas resiste-se quando utilizam calão ou linguagem de rua, não vos parece?

Valete - Eu tento ser "eu" nas minhas músicas. É importante que o seja. "Eu" com as minhas ânsias, extremismos, influências. Se sinto que devo dizer qualquer palavra, permito-me fazê-lo.

Sam the Kid- As pessoas dizem asneiras. Ouvi-las numa canção pode servir para as despertar, provocando curiosidade, mas também pode ter um efeito perverso, que é acharem que só dizemos asneiras.

Pacman - Há uns anos o Herman José fez um "sketch" a gozar com o "foda-se" de uma série de TV. Na altura, achou-se estranho ele ter feito aquilo por causa das asneiras. Hoje vê-se um filme português ou uma telenovela e existe uma aproximação entre o que é dito e a realidade. Sabemos que esse tipo de linguagem pode ser um entrave para entrar na Rádio Renascença ou na RFM, mas é inevitável. Esse preconceito perdeu-se. Os portugueses estão mais confortáveis com a língua.

Valete - Os palavrões não surgem do nada. Aparecem porque tentam reforçar algo que é dito.

Sam the Kid - Resume-se tudo a uma palavra: comunicação. Posso achar que alguém tem um estilo demasiado elaborado a escrever e não o entendo, mas também posso utilizar expressões simples que outros podem não perceber. Não existe num modelo, existem muitos modelos.

A antologia agora editada reflecte as diferentes abordagens de que é alvo o hip-hop hoje em Portugal, marcado por diversas influências. Mas é também um sintoma, tal como esta conversa, de que ainda não se olha - com algumas excepções - para o percurso individual de cada um.

Valete - Isso é uma das coisas que mais me dói. É triste quando se coloca tudo no mesmo saco, e isso acontece nos "media" e na indústria. Quando determinado projecto de hip-hop não vende, não é aquele projecto específico que falhou, foi todo o hip-hop e surge logo o chavão: "o hip-hop não vende". Isso é ignorância pura. Em relação à compilação, parece-me que ela podia ser ainda mais diversificada.

Melo D - É uma boa compilação de singles. Foram os temas que venderam os nossos discos. Se fosse eu não faria esta compilação, mas também sou doido e faria qualquer coisa que as pessoas poderiam achar estranha.

Pacman - É por isso que nós somos músicos e eles editam...[risos]. A compilação tem o mérito de mostrar a diferença entre o hip-hop que se fazia em Portugal nos primórdios e o de agora. Não sei se reflecte a cena ou o movimento até porque não estou muito dentro dele. Estou mais atento ao trabalho de alguns dos artistas envolvidos.

A oposição "underground"/"mainstream" está presente nos vossos discursos sobre o hip-hop. Num mercado exíguo como o português isso faz sentido?

Pacman- O Ace, por exemplo, está aí há muito tempo, e é um bom MC e letrista. É alguém indispensável para se perceber esta história em Portugal, mas existe muita gente, pelo facto de ele ter alguns temas conhecidos, que passa ao lado dele. É mau.

Melo D- Estão uns a subir e os outros cá em baixo: "o gajo está vendido, filho da mãe!"...[risos].

Sam the Kid - Agora existe menos esse discurso. Já existiu em relação ao Boss AC e aos Da Weasel. Havia uma espécie de revolta contra os "media" e as editoras - e agora provavelmente vou lançar o meu próximo álbum numa multinacional, vejam lá a contradição?

Melo D - Tenho visto muitas pessoas com o discurso do "underground" e depois engolem as palavras. Mais vale deixar as pessoas crescer. Todos vamos crescendo. São é necessárias boas canções.

Pacman - Não existe cena mais "orelhuda" que Bob Marley ou Marvin Gaye e a verdade é que todos nós gostamos deles.

Melo D - O importante é não existir uma visão a preto e branco das coisas. O que é importante é a música, seja hip-hop ou qualquer outro género.

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Na rua confronto-me muito com essa história do "yo!". Vêm ter comigo e começam "yo! yo! yo!"...[risos]. Não é necessário essa palhaçada toda para comunicar. Somos pessoas como quaisquer outras!
Melo D

A geração do Pacman e do Melo D tinha como referências os anos 80 do hip-hop americano, dos Public Enemy aos Run DMC. A meio dos anos 90 surgiu nos EUA uma geração de "rappers" apenas com visão de negócio. A minha geração e do Sam dividiu-se, então, entre aqueles que seguiram a MTV e uma outra de oposição, "underground". A terceira geração só tem como referências os "rappers" portugueses.
Valete

A identidade passa pela língua. As novas gerações querem identificar-se com aquilo que é dito. Querem perceber. Nem toda a gente percebe inglês. Eu gosto de hip-hop francês, mas apenas tenho dois discos, porque não entendo a língua.
Sam the Kid

Há uns anos o Herman José fez um "sketch" a gozar com o "foda-se" de uma série de TV. Na altura, achou-se estranho ele ter feito aquilo por causa das asneiras. Hoje vê-se um filme português ou uma telenovela e existe uma aproximação entre o que é dito e a realidade. Esse preconceito perdeu-se. Os portugueses estão mais confortáveis com a língua.
Pacman
 

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